
A Palavra do Fundador
Até o início da década de 1990, centenas de crianças em Esperantina lutavam diariamente pela própria sobrevivência. Sob o sol escaldante do Piauí, vendiam picolés e cana-de-açúcar, enquanto outras trabalhavam arduamente em pedreiras ou em fornos de carvão para ajudar no sustento de suas famílias. Diante dessa realidade tão dolorosa, eu não podia simplesmente fechar os olhos. Foi assim que nasceu AMARE, em 1990 — não a partir de um projeto previamente elaborado, mas da decisão espontânea de um grupo de jovens de não permanecer indiferente diante daquela situação.
Desde o início, acompanhou-me um pensamento de Albert Schweitzer, o notável médico e humanista que dedicou sua vida ao serviço das pessoas na África:
“Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros — é a única.”
A decisão de permanecer no Piauí colocava-me diariamente diante de uma pergunta: o que significa, de fato, estar à altura desse compromisso? Tendo crescido no conforto e na prosperidade do chamado Primeiro Mundo, renunciei à segurança financeira e precisei enfrentar problemas de saúde, incompreensões e até graves ameaças. Houve momentos em que não sabia como seguir em frente. Mais de uma vez, pensei em desistir e retornar à minha terra natal. Entretanto, sempre que me encontrava com as crianças e suas famílias, lembrava-me das razões que me haviam levado a escolher esse caminho: eu não podia, nem queria, abandoná-las à própria sorte.
Aprendi que nossa missão vai muito além da ajuda concreta. Trata-se de acolher as pessoas com respeito, construir relações de confiança e transformar convicções em ações efetivas. O Piauí está distante das regiões litorâneas economicamente mais desenvolvidas do Nordeste brasileiro. Ainda hoje, muitas famílias daqui dispõem de poucas oportunidades para melhorar suas condições de vida de maneira duradoura. Por isso, precisamos de pessoas e organizações dispostas a se comprometer, ouvir e assumir responsabilidades. Boas intenções, por si só, não bastam. É preciso permanecer, perseverar e continuar — mesmo quando os desafios parecem superar nossas próprias forças.
Ao longo das décadas, muita coisa mudou. Entretanto, uma realidade me toca profundamente nos dias de hoje: a crescente solidão emocional de muitas crianças e adolescentes. É uma dor silenciosa que carregam dentro de si. Algumas quase não veem mais os pais, passam o dia inteiro na escola e participam de inúmeras atividades — mas, ainda assim, sentem-se sozinhas. Por trás de um sorriso aparentemente despreocupado, escondem-se, não raro, experiências de violência, abuso e abandono. Essa realidade me mostra diariamente que não basta preencher o tempo das crianças com atividades. Precisamos alcançar seus corações, oferecer-lhes acolhimento e segurança afetiva e mostrar-lhes que cada criança tem valor, merece amor e tem direito a um futuro digno.
É por isso que acredito tão profundamente na AMARE. As crianças precisam ter acesso à cultura, ao esporte, ao acompanhamento psicossocial e ao apoio às suas famílias. Acima de tudo, porém, precisam de pessoas que permaneçam ao seu lado. Meu maior desejo é que cada criança que chega a AMARE sinta que sua voz é ouvida, que seus sonhos são levados a sério e que existem pessoas que acreditam nela e em suas capacidades.
Poder acompanhar uma criança em seu caminho para a vida e testemunhar como ela desenvolve a autoconfiança, supera seus próprios limites e descobre novas possibilidades é motivo de profunda gratidão. O verdadeiro valor do nosso trabalho se revela quando conseguimos ajudar uma criança a voltar a acreditar em si mesma e em um futuro melhor.
Sozinhos, não podemos transformar o mundo inteiro. Mas podemos transformar a vida de uma criança. E essa transformação pode se multiplicar, alcançando muito além do que somos capazes de imaginar hoje.
A todas as pessoas que depositam sua confiança na AMARE, apoiam nossa missão e, muitas vezes há muitos anos, caminham conosco, quero expressar minha mais sincera gratidão. Seu apoio representa muito mais do que uma contribuição financeira. É a expressão de uma convicção profunda que compartilhamos: nenhuma criança pode ser deixada para trás.
A mesma esperança que me levou, em 1980, a partir para o Brasil com o desejo de contribuir para a transformação da realidade continua a me impulsionar até hoje. Enquanto houver crianças que precisem de proteção, carinho e novas oportunidades, continuarei trabalhando para que AMARE permaneça sendo um lugar onde a esperança não seja apenas prometida, mas vivida todos os dias.
Com gratidão,
João Alemão